comportamento Maternidade

A hora de deixar a fralda

Cada criança tem o seu tempo; não apressá-la é fundamental

Há menos de seis décadas inventaram algo que pais e mães hoje não saberiam viver sem: a fralda descartável para bebês. Mas, se a popularização foi rápida no mundo, sua retirada do dia a dia da criança ainda causa conflitos. E o que muitos responsáveis não sabem é que precipitar ou pressionar esse processo pode causar vários problemas de saúde à criança.

Quem explica é Mariane, presidente do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Segundo ela, menores de 2 anos geralmente não têm maturidade fisiológica e psicológica para deixar as fraldas.

Em países como os Estados Unidos, por exemplo, é comum tirar os bebês das fraldas pouco após 1 ano de vida. Como não existe idade certa, é preciso respeitar o desenvolvimento de cada um. E são eles, os pequenos, que dão os sinais de quando estão prontos para passar a usar o trono ou o penico. Cabe aos responsáveis estarem atentos, explica a especialista.

“Na verdade, cada criança é uma. O importante é a idade fisiológica dela. Com menos de 1 ano, o bebê não tem qualquer controle do esfíncter, nem o controle cognitivo para entender o que está acontecendo”.

Mesmo assim, a idade mais comum para a criança sair das fraldas é entre os 2 e os 3 anos. A má condução deste processo pode causar problemas na bexiga, nos rins, infecções urinárias, incontinência, prisão de ventre e até problemas psicológicos – por nervosismo ou até bullying, quando há atraso do processo e problemas nas creches e escolinhas.

Os sinais

De acordo com a pediatra, o passo mais importante é os pais perceberem que a criança está pronta.

“Às vezes ela vai dizer que não quer mais fralda, vai ficar puxando, tirando, coçando os genitais, ficar indisposta ou incomodada, ou reclamando do xixi ou do cocô. Pense: antes de 1 ano ela não achava ruim que xixi e cocô estivessem ali – a não ser que sofra com dermatite de contato”, comenta, citando um problema de pele.

Percebidos os sinais da hora certa, os responsáveis devem conversar com a criança. Ela precisa saber que vai passar a não usar fraldas, assim como os pais e outros adultos.

Dicas para o tempo e o jeito de fazer a transição

O inverno é uma péssima época para o processo, pois com frio se sente mais vontade de urinar. Como não é prejudicial deixar a criança por mais tempo com fraldas, os pais podem esperar e se programar, usando, por exemplo, as férias, para estar mais próximos a todo momento – em vez de deixar a creche responsável pela mudança. Se não for possível, o melhor a fazer é ter uma conversa com as professoras.

Segundo Luciana, psicóloga infantil pós-graduada em Psicologia Psicossomática, outra dica é não deixar ocorrer um meio termo para o desfralde. “Tiramos ou não tiramos, para não confundir a cabeça deles”, conta ela.

A profissional explica que deixar a criança à vontade em casa, e com fraldas para sair, pode causar dúvidas e conflitos. A exceção é o desfraldamento noturno, que ocorre mais tarde, quando os pais percebem que o bebê já aprendeu a ir ao banheiro de manhã e, à noite, a fralda está cada vez mais limpa ao acordar.

Só em casos especiais, como a visita a um amigo, se coloca para evitar situações constrangedoras. Mesmo assim, o melhor é evitar.

Outro macete, segundo a pediatra Mariane, é combinar com a criança. “Fale para ela: quando você quiser fazer xixi, olhe para a mamãe e pisca uma vez. Se quiser fazer cocô, pisca duas vezes. Criança adora essas coisas e isso é bom para o pequeno não criar alarde e ser repreendido. Aliás, os pais nunca podem brigar. A criança se assusta e começa a prender o cocô e o xixi”, explica.

A cada erro, o indicado é ter calma e dar incentivo, como “nós vamos conseguir, vamos chegar lá”; deixar as crianças observarem os pais no banheiro, também ajuda. “Aos meninos, é indicado o pai ensinar como segurar o pênis da maneira adequada para fazer xixi”, aconselha a médica.

Auxílio profissional pode ser necessário

Mesmo respeitando os sinais que a criança dá para sair das fraldas, há quem precise de ajuda especializada. E existem profissionais que auxiliam os pequenos a controlar e educar o organismo, para que o processo de ir ao banheiro não se transforme em um drama.

Helena, hoteleira de 41 anos, por exemplo, é mãe de Malu, de 3 anos. A criança não sofreu para sair das fraldas. Um dia, sem nenhum esforço da mãe, a menina arrancou a fralda e pediu para escolher o próprio troninho, na loja. Mas, no intervalo de um ano, teve quatro infecções urinárias – era o sinal de de que alguma coisa estava errada.

“Disseram que ela tem a bexiga hiperativa, ainda não aprendeu a se controlar, conforme os estímulos do cérebro”, conta a mãe, que percebeu também a grande quantidade de vezes que a filha ia ao banheiro, sem fazer quase nada. “Ela demorava para sair e ficava com vontade. A bexiga precisava aprender a funcionar”.

Só ia quando mandavam

Com Paco, de 7 anos, foi diferente. A mãe, Mariella, de 39 anos, veterinária, percebeu que o filho ficava muito tempo sem fazer xixi. E sempre havia um pinguinho na calça.

“A saída dele das fraldas não foi nada traumática, mas é bexiga hiperativa. As pessoas pensam que o único sintoma é a vontade de urinar o dia inteiro. Ele não sente vontade. Só ia quando a gente mandava”, diz a mãe.

Além de as duas crianças terem em comum a bexiga hiperativa, ambas fazem um tratamento com uma fisioterapeuta pélvica, Mariana.

“Muita gente tem vindo com prescrição médica. Os problemas podem ser influenciados por tirar a fralda antes do tempo, por algum nervosismo da criança, ou simplesmente porque ela não está preparada ainda”, diz a profissional.

Tratamento

Para o tratamento, existe um aparelho que produz neuromodulação da bexiga: um estímulo elétrico que faz chegar ao cérebro a informação de que a criança precisa regular a bexiga e aumentar a capacidade de segurar a urina.

Esse trabalho geralmente é feito a partir dos 2 anos de idade. Outro trabalho também desenvolvido é o da consciência perineal, a coordenação do assoalho pélvico para contrair e relaxar a musculatura. Serve para eliminar a urina e evacuar da maneira correta, a partir de eletrodos que medem a força aplicada pela criança.